Ela estava ali brincando com o canudinho do suco de abacaxi. Na lanchonete, o horário do almoço era uma loucura, os sons das muitas vozes se confundiam e mais pareciam anunciar o grito de carnaval em pleno agosto. Mas ela não estava incomodada, hoje não, ela estava ali sozinha, numa mesa com mais três cadeiras vazias, como se esperasse alguém. Nunca havia demorado tanto para tomar um suco, ela que normalmente era capaz de almoçar em menos de três minutos, enquanto falava ao celular e folheava uma revista qualquer. Quem visse e a conhecesse não entenderia nada, afinal aquela quietude toda não combinava com ela, ainda mais naquela quarta-feira maluca. Mas por algum motivo, que nem mesmo ela sabia, lá estava Clara, em um silêncio de tamanha paz que seria possível dizer que aquele seria um dia diferente. Foi então que o estranho chegou e sem cerimônia alguma puxou a cadeira, sentou-se e disse-lhe um sonoro oi de maneira tão espontânea, que por um momento ela pensou que realmente o conhecia. E então, inesperadamente não franziu a testa, nem fechou a cara, ela abriu um largo sorriso e começou a conversar com ele. Uma conversa longa, demorada, cheia de sorrisos e sensações, como há muito tempo ela precisava, mas não tinha (desde que ele foi embora). Uma deliciosa conversa que não se prendeu as horas e que quando deram por si, já era tarde, ela tinha que ir para casa e ele, tinha uma festinha, era aniversário do Rodrigo, amigo de infância dele. Ele então a abraçou (era agora um amigo de toda a vida, daqueles que a gente gosta porque gosta, sem explicação) e despediu-se (já estavam nessa de se despedir há pelo menos quarenta e cinco minutos). Ela disse tchau, pegou o celular e já estava chamando o táxi, quando ele segurou-a pelo braço e sugeriu-lhe que ela o acompanhasse a festinha. Por um momento, ela pensou estar realmente perdendo o juízo, afinal não fazia a menor idéia do nome dele e por incrível que pareça ela não estava nem aí. E antes que se desse conta já estava lá na tal festinha, de braços dados com ele, toda sorrisinhos, conhecendo todo mundo, desejando felicidades e muitos anos de vida ao Rodrigo e coisa e tal. E quando deu por si, o dia estava amanhecendo e ela estava na casa dele. Não se sentia estranha, incomodada ou envergonhada, ele fazia dela agora uma pessoa diferente e Clara não tinha medo disso. Ela abraçou-o como se não houvesse mais nada para fazer em plena quinta-feira e disse-lhe, não se apaixone por mim, porque farei você sofrer. Ele ficou sério, sabia que aquilo tinha uma razão e ela explicou-lhe que há muito gostava de outro alguém (um amor louco, desmedido, parecia uma tempestade em dia de verão). Não era sua escolha, aquele sofrimento definitivamente não era seu desejo, mas ela sabia que aquele outro era algo que dicionário nenhum seria capaz de definir. Ele disse para ela não se preocupar, estava ciente dos riscos, mas não ia a lugar nenhum. Ele seria agora a sua morada, o seu refugio, seu porto seguro. E Clara então pode perceber que talvez isso sim fosse amor. Um amor tranqüilo e sereno como a chuva que cai fininha em plena madrugada, para anunciar que já é hora de descansar. E ela estava tão cansada, que resolveu arriscar e fazer abrigo naquele terreno que embora desconhecido trazia-lhe a sensação boa da infância de menina no interior de Minas. E desde então João Pedro e Clara não conseguem terminar aquela conversa longo e demorada daquela quarta-feira maluca...
Humpf
Há 4 semanas


Um comentário:
ele poderia ser um psicopata...
quem assiste Caminho das índias sabe...
a Ivone é o créu,rsrsrs
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