"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio F. ( O ovo apunhalado)
No começo, você sente que está caindo e tenta desesperadamente se agarrar a algo. A queda é lenta e indolor, a medida que o fundo do poço avança. Ao chegar ao completo breu, alcança-se uma mórbida serenidade, as lágrimas secam, os anseios se afogam na água cristalina do poço. O poço frio, escuro e sujo, no qual o tempo para, passa lentamente a fazer parte de você, misturando-se aos seus cabelos, a sua pele, por todos os poros. No começo, seus olhos ainda sentem falta da claridade, mas o cansaço da queda pede calma ao corpo e adia a fuga. Então o poço mistura-se a você e a necessidade da fuga fica cada vez mais distante. Dia após dia, o poço mistura-se a você e então já não é mais possível dizer onde termina a pessoa e onde começa o poço. Você mistura-se ao breu do poço, o breu do poço mistura-se a você. Não há mais o que se fazer, o poço é tão fundo que você simplesmente desiste de pensar na fuga. É humanamente impossível sair do poço sozinho, você conclui. E o poço passa a ser você e você passa a ser o poço, o fundo do fundo do poço.

