Por um instante, o coração dela parou. Ela não respirava, não piscava, não se mexia. Fez-se um silêncio ensurdecedor do outro lado da linha, enquanto ela esforçava-se para não cair aos prantos. Tudo o que ela ouvira segundos antes era:
- Eu não gosto de você, jamais gostei e não lhe tenho em consideração.
Claro que ele não falou com ela desse jeito,nem de jeito nenhum. Ele não era homem do tipo que põe um ponto final. Apesar de uma certa idade evidenciada pelos primeiros fios grisalhos, ainda havia resquícios nítidos de um jeito moleque e covarde, encobertos por uma lustrosa faixada de maturidade. Mas os fatos deixavam claro que independente da conversa que estavam tendo, essa era a verdade. Claramente ela conseguiu escutar as palavras duras, apesar de todo bla bla bla. Seria menos sofrido se ele mesmo as tivesse pronunciado, seria mais verdadeiro e mais digno também. Num fiapo de voz. tudo o que ela conseguiu conseguiu dizer foi:
-Olha, eu preciso desligar agora. Vc está me ouvindo? Eu preciso desligar. Beijo. Tchau.
Não esperou a resposta do outro lado da linha, desligou o telefone antes que uma enxurrada de lágrimas levassem pelo ralo o pouco de dignidade que ainda lhe sobrara, se é que havia sobrado algo. O choro alto ecoou pela casa vazia, as palmas das mãos não foram capazes de conter tal inundação. Mesmo sabendo da verdade há bem mais tempo, mesmo tendo chorado diversas outras vezes, mesmo o coração tendo lhe alertado há meses, ela não imaginava que não estava preparada para tamanha decepção. Não fora possível prever que mais uma vez teria seu coração dilacerado pela mesma pessoa. Ouviu um barulho, era a família chegando. Calou-se, rapidamente correu para o banheiro, lavou o rosto e correu para cama. O pai estava doente, muito mais do que aparentava, não seria justo ocupar ninguém com esse assunto bobo. Pegou as pílulas em cima do criado mudo e tomou logo três, ajeitou-se debaixo das cobertas e tudo o que desejou foi que o breu da noite a engolisse.


2 comentários:
Eu li esse post seu há alguns dias.
Não sei porque não comentei, mas ainda tenho a mesma opinião: ficou maravilhoso.
O toque final ficou divino: "ajeitou-se debaixo das cobertas e tudo o que desejou foi que o breu da noite a engolisse."
Gosto do que escreve quando quer demonstrar seus sentimentos, pois consegue fazê-lo sem sombra de dúvidas.
beijos!
Menino, não faz isso comigo não, quase chorei aqui (nem sou sensível, né?!).
Elogio sempre é bom, mas vindo de vc, que escreve tão bem, quase fico sem palavras. Que bom que gostou!
bjo gigantesco!
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