19 de out. de 2009

A bonequinha de porcelana e a fera

Eu encantei você. Eu e a minha falta de dignidade começamos discretamente a te olhar. Sabia exatamente o que você estava procurando e pensei que talvez pudesse tornar essa procura mais interessante. Você olhou para mim, uma, duas, sete, nove, pelo menos umas duzentas vezes. E ficou com aquele sorriso bobo, quando por alguns instantes deixei que percebesse que também olhava em sua direção. Você não se conteve, veio falar comigo, uma bobagem qualquer que nem escutei, mas você fez questão de pegar no meu cabelo e beijá-lo, num gesto doce e delicado para quem estava só a fim de um pouco de diversão. Então, você voltou para a sua mesa e continuamos a nos olhar numa conversa eloquentemente muda. Era impossível não perceber um certo brilho no seu olhar, há muito tempo que eu não provocava isso em alguém e há muito tempo tinha esquecido de como era essa sensação. Você então voltou, pediu para se sentar e conversar um pouco. Não precisei mover um músculo sequer para te encantar. Você se derreteu pelo sorriso meio sem graça, pelo jeito tímido da voz quase sussurrada, pelas mãos em cima da mesa que brincavam com a caipirinha de abacaxi. E me perguntou pq eu tinha deixado o namorado em casa numa noite de sábado. Não tenho tempo para isso, disse como quem revela um segredo. Você só conseguia repetir que eu era diferente, olhava para mim e não escondia o encantamento. Nada de joguinhos ou indiretas, a bonequinha de porcelana conseguia ver claramente o brilho nos olhos da fera, que se transformava agora num bichinho de estimação dócil. Então, apressadamente me levantei e disse que tinha que ir embora. Você insistiu para eu ficar, afinal não era nem uma da manhã, mas também já era domingo e o horário de verão começava. Sem saber o quê fazer, você me abraçou, ficou inebriado com o meu cheiro e suplicou para que eu fosse dormir na sua casa. Você não tem coragem? Ainda que já soubesse a resposta, você não podia deixar de fazer essa pergunta. Delicadamente sussurrei no seu ouvido que sem pressa seria melhor. Peguei minha bolsa, você sem saber o que fazer, não acreditava que a bonequinha de porcelana ia mesmo embora. Não olhei para trás, mas senti seus passos apressados em minha direção e você me segurou pelo braço num gesto quase agressivo , queria o número do telefone. Eu sorri, um sorriso largo e doce de menina, e disse que era melhor deixar por conta do destino, afinal a vida é a arte dos (des)encontros. Preciso confessar, tive um pouco de pena de ver você ali, parado, o telefone na mão, sem conseguir entender o que estava acontecendo, sem ganhar ao menos um beijo de boa noite. Mas me lembrei que um homem na casa dos quarenta já deveria saber que a porcelana fria da boneca não é capaz de sentir calor.

2 comentários:

[P] disse...

U-i! Fiquei com pena da fera também...

Um beijo, moça.

Priscila disse...

[P], a boneca de porcelana já se quebrou uma vez. Foi feio, um descuido, tentei colar mas não ficou muito bom. Agora, ela prefere brincar, o risco é menor e é mais divertido.
bjo!

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