5 de out. de 2009

A moça e o velho

Sábado, quase duas da manhã e lá estava a moça, imóvel ao lado de um bar, no qual ela já estivera dezenas de vezes. Testa franzida, carteira na mão e uma certa vontade de não estar ali, culpa da demora da espera. A moça não chamava a atenção pela forma como se vestia, calça jeans numa tonalidade escura, uma túnica branca de manga 3/4 com uma certa transparência, sandálias de tiras grossas de um couro nude e um salto de 10cm. Os cabelos estavam soltos com resquícios de cheiro de fumaça de cigarros alheios e uma maquiagem discreta, gloss rosinha cintilante na boca e rímel e sombra cinza metálica misturada a marrom terra nos olhos pequenos, ninguém entendia o que aquela pessoa estava fazendo ali, “plantada” a quase uma hora. Embora um pouco impaciente, a moça agradecia por não estar de decote, item mais que presente no guarda-roupa discreto, e pernas de fora, deu vontade quando pensou no calor que fazia, mas preferiu não arriscar. Um senhor de terno cinza se aproximou, ela reparou que a luz do poste realçava a cabeleira prateada repleta de fios grisalhos. Sem rodeios ele disse, meio que perguntando a uma pessoa qualquer: O quê uma loira dessas faz aqui sozinha?
A moça vencida pelo cansaço da espera não esboçou uma reação sequer, afinal não tinha culpa dos reflexos do cabelo chamarem atenção de senhores.
Então, o senhor, aproximou-se um pouco mais e gentilmente perguntou a moça se ela precisava de um táxi.
Desarmada pela gentileza de um desconhecido, num lugar em que muitas vezes quando se esbarra em alguém logo se pensa em assalto, a moça abriu um sorriso e disse que não, obrigada, estou esperando alguém. O senhor despediu-se com um boa noite e a moça ainda ficou um bom tempo parada naquela avenida movimentada, pensando qual foi a última vez que alguém tinha lhe feito uma gentileza de forma despretensiosa.

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